Foto: Divulgação/ Governo do Estado
Secretário de Estado por sete anos, primeiro de Planejamento e posteriormente de Desenvolvimento, o economista Guilherme Dias deixou o governo há exatamente uma semana, mas antes fez um balanço das atividades realizadas durante a longa gestão. Destacou programas de incentivo fiscal e falou sobre polêmicas, como o estudo de venda do Banestes e os desentendimentos entre Espírito Santo e São Paulo no caso Fundap. Guilherme Dias ainda revelou os motivos que o fizeram deixar o governo e garantiu que a decisão nada tem a ver com as eleições. O partido dele, o PSDB, terá candidato próprio, que baterá de frente com o vice-governador Ricardo Ferraço.
Confira a entrevista na íntegra:
Folha Vitória - Porque deixar o governo neste momento?
Guilherme Dias - Eu deixo a secretaria conforme eu já havia acordado previamente com o governador Paulo Hartung. Neste ano em completei 49 anos de idade, 30 de carteira assinada e pelo menos 20 anos de funções executivas de linha de frente, de responsabilidade. Desde a área financeira do BNDES, Ministério do Planejamento e, por fim, aqui no Estado sete anos. Em todas as minhas experiências profissionais eu completei um ciclo. Eu nunca saí de lugar nenhum sem ter atingido certas metas e objetivos pré-estabelecidos. Eu vinha conversando com o governador desde setembro do ano passado sobre o meu interesse de me dedicar a outros desafios profissionais.
Folha Vitória - Quais desafios seriam esses?
Guilherme Dias - Nos próximos dois anos pelo menos eu pretendo me dedicar a três conjuntos de temas: primeiro, eu estou devidamente matriculado em um programa de Doutorado da UFRJ, voltado justamente para a área de Políticas de Desenvolvimento. Nesse programa eu vou desenvolver uma pesquisa que nos permite uma avaliação do desempenho da indústria do petróleo e gás no Brasil e uma avaliação do nosso modelo regulatório. Acho que esse e um tema relevante e é um tema que paradoxalmente o governo federal propôs uma mudança radical em um marco regulatório que a princípio é muito bem avaliado. Ponto dois: fora de governo vou ter mais condições de fazer algo que gosto, que é participar mais do debate econômico e dar palestras. Debatendo temas mais de ordem nacional. E por fim estou avaliando algumas propostas de trabalho, de assistência a alguns projetos e também empresas. Mas isso ainda está em caráter embrionário.
Folha Vitória - E quanto ao sucessor do senhor?
Guilherme Dias - Eu fico muito feliz em saber que quem está vindo é o Márcio Félix, que é uma pessoa que teve oportunidade também de conhecer bastante o Estado e colaborar com muitos sistemas com que o Estado vem trabalhando. Uma pessoa que, no período em que ficou à frente da Unidade de Negócios da Petrobras no Espírito santo ele contribuiu de forma muito positiva com o governo. É um profissional de carreira, com uma bagagem grande e que conhece o Estado. Isso me deixa mais tranquilo ainda para partir.
Folha Vitória - Como foi o início dos trabalhos no governo, há sete anos?
Guilherme Dias - Aqui no Estado estou desde o início do governo, entre no primeiro mandato do governador. Desde maio na área do Planejamento e Orçamento e Gestão. Acho que principalmente no trabalho com José Teófilo, na Fazenda, pude contribuir para aquele esforço de reorganização das contas públicas, retomada da capacidade de investimento, introdução do planejamento estratégico do governo, gerenciamento de projetos e principalmente do planejamento de longo prazo, que é o "2025".
Folha Vitória - E como se deu a ida do senhor para a secretaria de Desenvolvimento?
Guilherme Dias - Quando o governador Paulo Hartung se reelegeu, nos refizemos o contrato. O Júlio Bueno estava retornando para o Rio e eu assumi o Desenvolvimento, retornando às minhas origens. O meu vínculo profissional é com a área de Desenvolvimento, apesar de durante muitos anos eu ter lidado com essa questão das finanças públicas. Acho que foi um período muito rico em experiência. Apesar de ter sido um período também marcado pela maior crise econômica internacional dos últimos tempos, que teve um impacto muito intenso aqui no Espírito Santo. O Espírito Santo foi um dos estados mais afetados pela crise econômica internacional. As estatísticas mostram isso claramente. Mas apesar disso foi possível avançar e mobilizar projetos ou que estão em maturação ou já estão em fase bem avançada de negociação.
Folha Vitória - O senhor poderia destacar algumas áreas ou projetos importantes desse período em que esteve à frente da secretaria?
Guilherme Dias - Tem dois programas muito importantes que tinham sido criados ainda na gestão do Júlio Bueno: o Invest Espírito Santo e os Contratos de Competitividade. Vamos começa pelos Contratos de Competitividade. Eles viram reduzir a carga tributária e fixar metas de melhoria de competitividade para os arranjos produtivos locais. Isso começou em 2006 segmentos e, até 2008 não pudemos não apenas melhorar as condições desses três contratos, mas estender a 15 outros segmentos econômicos. O programa Invest trabalhou muito forte para atrair investimentos e teve uma inovação importante que foi estender o Invest ao segmento de importação. Foi uma alternativa ao mecanismo do Fundap, em que nós enfrentamos muitas dificuldades com outros estados. Houve uma lista muito grande de novas empresas, mas acho que uma empresa que pode ser citada como simbolismo é a TEG, que houve uma disputa grande entre três estados. Ela está começando a implantar uma fábrica de motores elétricos em Linhares. Outro tema importante, que sofreu percalços, mas foi retomado, é a siderúrgica em Ubu. Projeto que trabalhamos inicialmente com uma forte participação da Boesteel. Depois a Boesteel sai do projeto, a Vale continuou e o projeto está em licenciamento ambiental, em outro conceito, atendendo as recomendações da avaliação ambiental estratégica.
Folha Vitória - E na área do petróleo e gás?
Guilherme Dias - Eu vou deixar para registro o que a gente chama de investimentos na agregação de valor na cadeia produtiva do petróleo e gás. É fato o crescimento da exploração de petróleo e gás no Espírito Santo. Mas se produzir petróleo fosse o melhor negócio do mundo, os países exportadores de petróleo seriam os melhores países do mundo. E não são. Com raras exceções. A dependência de matéria prima não é uma coisa boa em longo prazo. Tem que haver diversificação e agregação de valor. E de certo modo o espírito santo tinha desenvolvido uma base produtiva bastante diversificada antes mesmo do boom do petróleo, fomos buscar projetos que agregassem valor ao longo da cadeia produtiva. Eu vou dar exemplos: terminais portuários, estaleiros e fábricas de equipamentos de toda natureza. Também há a possibilidade de pegar o petróleo e o gás e produzir outros produtos a partir deles. A gente sempre imagina logo uma refinaria. Mas não é só isso. Tem fertilizantes, geração de energia e outros tipos de produtos. Em 2007, junto com a Petrobras, nós identificamos projetos que faríamos um esforço para viabilizar. E nós identificamos cinco possibilidades. O primeiro projeto, já está quase pronto, em final de obra, é o terminal da Transpetro em Barra do Riacho. O segundo projeto - e esse sofreu muitas modificações e agora está na fase final, em processo de licenciamento ambiental, é um terminal portuário em Anchieta, de apoio e suprimento off shore. O terceiro é que nós projetamos viabilizar uma termoelétrica de 500 MW a gás natural. O resultado é que só nos leilões realizados até agora o Espírito Santo já tem nove termoelétricas que vão agregar 2.000 MW. A maioria em gás natural. O quarto projeto é um investimento privado, mas desenvolvido dentro de uma interação com a Petrobras. É um estaleiro de grande porte. Isso é um marco, pois ele produz os equipamentos de maior porte. Ele chega a mobilizar de mão de obra direta cinco mil trabalhadores. E atraímos a Jurong para implantar um estaleiro em Aracruz. A área já está disponível, tem quase um milhão de metros quadrados. Está em fase final de licenciamento ambiental. As obras começam neste semestre ainda. A ideia é que eles possam estar com ele pronto até 2012. O quinto seria a cereja do bolo. É um projeto que a Petrobras ainda não bateu o martelo, mas eu diria que estamos para lá da metade do segundo tempo, é um projeto de investimento de pelo menos U$ 12 bilhões. É uma fábrica de fertilizantes. A unidade de tratamento de gás natural que a Petrobras possui em Cacimbas tem capacidade de produzir 20 milhões de metros cúbicos de gás. A planta de fertilizantes vai consumir no máximo 10% disso. E é uma planta grande. Os mercados consumidores dos fertilizantes nitrogenados estão nas regiões central e extremo sul. Temos toda a estrutura ferroviária, que permite uma logística de transporte. Uma terceira questão é que esse projeto fica em Linhares, em uma área da Sudene, o estado baixou um decreto exonerando a tributação de ICMS do gás natural fornecido a essa fábrica, para torná-la mais competitiva.
Folha Vitória - O senhor acha que a crise econômica é coisa do passado?
Guilherme Dias - Apesar de 2009 ter sido um ano de recuperação da crise econômica, ainda falta muito para se retomar ao nível anterior à crise em vários segmentos econômicos e siderurgia é um deles. Eu acho que a medida que haja uma recuperação da economia internacional, que o Brasil continue uma trajetória de crescimento, outras oportunidades vão surgindo.
Folha Vitória - O acordo que precisou ser celebrado com São Paulo para manutenção da arrecadação de ICMS trouxe algum prejuízo para o Espírito Santo?
Guilherme Dias - A falta de acordo é que iria incorrer em prejuízo. Esse é um problema equacionado. O mercado de certo modo se ajustou às modalidades que foram oferecidas. Obviamente, o volume de importações depende também no nível de aquecimento da economia brasileira. O comercio exterior de forma geral caiu muito: as importações e as exportações. Então uma parte grande da redução do movimento do Fundap aqui foi uma redução geral que aconteceu no país no volume de importações. O segmento de distribuição voltado ao mercado interno também cresceu muito nesses últimos anos.
Folha Vitória - Quais que o senhor considera os maiores desafios do Espírito Santo daqui para frente?
Guilherme Dias - Quando a gente fala em desafio a gente fala em longo prazo. Vou falar de três. A lista, obviamente, pode ser maior. Não devemos criar uma falsa ilusão de que o Espírito Santo se tornou um estado rico. O Espírito Santo se tornou um estado bem administrado. Então, em longo prazo, do ponto de vista institucional, é manter esse padrão de administração de finanças públicas. Que garante que uma parcela importante os recursos arrecadados retornem sob a forma de investimentos para a população. No âmbito federal, infelizmente o governo exagerou com o inchaço da maquina. Poderia ter usado o crescimento da receita para investir mais. Aqui no Estado tem sido diferente. Outro desafio importante é o de qualificação profissional. Quanto mais o estado avança, maior a exigência. Quanto mais se faz, mais se precisa. Há uma mobilização não somente do governo estadual, mas do federal e de organizações empresariais. E tem a infra-estrutura. Aquilo que dependia do Governo do Estado e do setor privado está indo. Agora, normalmente aqui no Estado infra-estrutura problemática é aquela que depende do Governo Federal. O caso vergonhoso, porque não existe outro termo, é o aeroporto. Não existe outro termo. Nenhum outro adjetivo no dicionário que possa descrever a situação do Aeroporto de Vitória. O governador já tentou trazer esse assunto para a agenda do estado, mas... O Governo Federal não resolve e não dá nenhuma pista de como vai resolver, o que é pior. Eles nem dão mais satisfação sobre o assunto. Outro problema é o das rodovias federais. Está muito atrasado, mas parece que esse ano sai de concessão ao setor privado da BR-101. Para ajudar a viabilizar uma concessão com pedágio que possa ser pago pelos usuários o governo do estado está entrando com uma contrapartida, que é a construção do Contorno do Mestre Álvaro. O terceiro ponto de infra-estrutura, apesar de ter tido algum atraso, acho que houve um equacionamento favorável são os dois projetos que a Codesa está tocando: a dragagem e a derrocagem do canal de acesso à baía de Vitória e a expansão do cais comercial. Dos três, o que esta caminhando com uma nota boa é esse, do porto. Deve começar nos próximos meses.
Folha Vitória - Outro marco na gestão do senhor foi a possibilidade de venda do Banestes. Depois que as negociações com o Banco do Brasil se encerraram surgiram especulações sobre negociações com outros bancos. Isso realmente existiu?
Guilherme Dias - Primeiro que o Governo do Estado não colocou o Banestes à venda. Para você colocar a venda teria que fazer um leilão. O Governo do Estado iniciou uma negociação exclusiva com o Banco do Brasil. O Governo do Estado não colocou o Banestes à venda para qualquer interessado, vamos deixar claro. Se fosse para fazer isso, faria um leilão e deixaria em aberto, quem pudesse pagar levaria. Não foi isso. O Governo do Estado iniciou uma negociação exclusivamente com o Banco do Brasil. Para isso, foi assinado um termo de exclusividade. Pela razão de que à época o governo julgou que o Banco do Brasil seria a única instituição que poderia dar conta, pela natureza dos serviços, da mesma atuação que o Banestes tem: crédito rural muito forte, comércio exterior... Acho que se o Estado a qualquer momento fosse colocar o Banestes à venda, interessado sempre haverá. O negócio é saber qual instituição pode não somente pagar o preço, mas assumir compromissos com os segmentos econômicos do Estado. Então, foi uma negociação exclusiva com o Banco do Brasil. Mas, entretanto, porém, o fato de ter se dado exclusividade ao Banco do Brasil não obrigava o governo a qualquer preço. E o preço que o Banco do Brasil ofereceu não atendia às expectativas e avaliação técnica que a equipe do Estado tinha em relação ao banco. Mas isso tudo são águas passadas.
Folha Vitória - Nós estamos em ano eleitoral. O senhor pretende se dedicar a alguma campanha?
Guilherme Dias - Eu tenho muita coisa para fazer. E campanha eleitoral pelo que eu sei - e isso são os candidatos que dizem, acontece somente após as convenções. Eu nunca trabalhei em campanha nenhuma. Mesmo porque campanha hoje em dia é uma coisa profissionalizada. Emitir opinião sobre as coisas, isso qualquer um sempre emite, pode emitir. Então, eu tenho lá minhas convicções. Acho que quem tem que falar se campanha é os candidatos.
Folha Vitória - Surgiram muitos comentários de que a saída do senhor, que é tucano, da secretaria poderia ter alguma ligação com as eleições. Faz algum sentido?
Guilherme Dias - Minha vida profissional não está na dependência de eleição. Todas as experiências de governo que eu participei eu aceitei porque uma vez convidado entendi que minha visão de mundo e filosofia podiam ser implementados. Eu já ocupei muitos cargos executivos e nunca fui indicado por partido político. O que não quer dizer que na hora certa e no momento certo eu não possa emitir a minha opinião. Meu calendário não é eleitoral, é outro. Inclui meus compromissos no Doutorado, outros convites que eu tenho... Tenho que me desincompatibilizar por outras coisas, não por causa de eleição.